FitoterapiaSaúde Mental

Fitoterapêutica como opção

Bem-estar mental

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A mente é quem comanda o corpo e, por isso, ela precisa estar bem para que se consiga realizar as atividades normais do dia a dia.

A saúde está sempre relacionada ao pleno funcionamento das funções do corpo, contudo, o bem-estar mental  é tão importante quanto o físico e emocional. Ambos estão conectados e é fundamental cuidar da mente tanto quanto cuidar do corpo.

Nos últimos anos houve um aumento na comercialização de fitoterápicos com indicação para os transtornos mentais. Esses medicamentos despertam reações variadas nos profissionais de saúde mental, que vão de uma resistência absoluta a um entusiasmo extremado, passando por uma indiferença. Mais ainda, geralmente essas posturas abordam os fitoterápicos como um todo, não distinguindo entre os diferentes medicamentos desse grupo. Entretanto, é mais adequado avaliar cada fitoterápico com uma abordagem semelhante aos dos medicamentos sintéticos, ou seja, baseada em evidências científicas sólidas, particularmente em estudos clínicos controlados.

Por esse ângulo, os fitoterápicos apresentam diferenças importantes entre si, pois, se de um lado encontramos medicamentos cuja eficácia tem sido comprovada em estudos clínicos controlados (comparativo com placebo, duplo-cego, randomizado), de outro temos fitoterápicos como a das quais não encontramos nenhum estudo controlado na literatura.

Gingko

Utilizam-se as folhas de Gingko biloba para obter extratos com ação terapêutica. Elas podem ser obtidas de plantas nativas ou cultivadas, e podem ser colhidas manual ou mecanicamente. O conteúdo de glicosídeos flavonóides é maior nas folhas frescas, colhidas no mês de maio (no hemisfério norte).

Sempre se partiu da pressuposição de que, com a idade, se desenvolvam lesões vasculares, que implicam mau suprimento sanguíneo ao tecido nervoso, levando à disfunção. O avanço científico demonstrou haver outras formas de degeneração neuronal, que levam a quadros de debilitação mental incluídos no grupo de doenças demenciais, como o mal de Alzheimer. A indicação mais difundida do gingko é para o tratamento sintomático de deficits cognitivos devidos a doença cerebral orgânica, abrangendo zumbidos, vertigem, cefaleia, falta de memória, e também distúrbios afetivos, como depressão e ansiedade. Com base nas suas ações farmacológicas e nos seus efeitos clínicos, os extratos de gingko têm estreita relação com as drogas nootrópicas.

A dose é dividida em duas ou três tomadas, observando-se a paciente após oito semanas, e reavaliando-se após três meses, com o objetivo de aferir a melhora pretendida, mantendo-se ou descontinuando-se a prescrição. As respostas adversas relatadas abrangem especialmente a reação por hipersensibilidade, os efeitos gastrintestinais, geralmente leves, porém deve-se manter atenção sobre a coagulabilidade sanguínea, uma vez que há atuação sobre a agregação plaquetária, havendo relatos de sangramentos. A interação com outras drogas é sem importância, mas é bom estar atento ao uso concomitante de aspirina, que seria um fator de aumento de risco hemorrágico.

As principais drogas disponíveis para tratamento dos distúrbios cognitivos e demenciais  têm efeitos terapêuticos muito semelhantes. A vantagem de se escolher gingko reside na menor taxa de efeitos adversos.

Hipérico

O hipérico é conhecido há mais de 2 mil anos, como planta útil no tratamento de doenças mentais. Os estudos científicos são numerosos nos últimos 60 anos, embora os mais rigorosos tenham sido realizados principalmente nos últimos 10 anos. Há quase 400 espécies no gênero Hypericum. O produto conhecido e desenvolvido é proveniente do Hypericum perfuratum, que antigamente era obtido de plantas nativas, porém hoje em dia é extraído de plantas cultivadas. A maior parte dos princípios ativos se concentra em botões, flores e folhas distais, razão pela qual a qualidade do extrato obtido pode ser muito variável, na dependência do seu manejo e da sua produção. Os extratos medicamentosos de boa qualidade são extratos alcoólicos obtidos com metanol contendo 20 a 40% de água, e com proporção de droga de 4:1 a 7:1. As substâncias ativas são várias, denominadas hipericinas, todas do grupo das naftodiantronas. Outro constituinte que também parece muito importante é o floroglucinol de hiperforina, substância instável que, na planta, parece ser estabilizada pela ação de flavonóides. Para a sua estabilização em formulações, são utilizados antioxidantes, como o ácido ascórbico. A hiperforina parece ser mais potente que as hipericinas na depressão.

A indicação do hipérico restringe-se basicamente à depressão. A sua ação benéfica na ansiedade, na agitação nervosa e nas perturbações psicossomáticas deve ser considerada dentro da sua ação antidepressiva, após tratamento por algumas semanas. Como não possui efeitos agudos e imediatos, não deve ser utilizado quando se deseja ação pronta, como é o caso da indução do sono. Pela mesma razão, só tem indicação para casos de depressão leve a moderadamente grave e transitória. As doses preconizadas atualmente são de 500 a 1.000mg diários de um extrato total de boa qualidade, no início do tratamento, diminuindo-se, após a melhora, para 300 a 600mg diários, se houver necessidade de tratamento de manutenção. O principal efeito adverso para o qual se alerta é a fotossensibilização, que pode ser provocada pelas hipericinas, mas essa reação só tem sido observada com doses muito mais elevadas que as preconizadas, cerca de 30 a 50 vezes (tentativas de suicídio, por exemplo). Neste caso, o paciente deve ser protegido da luz solar e de todas as radiações ultravioleta possíveis, por pelo menos uma semana, uma vez que a eliminação de hipericinas é lenta. A interação do hipérico com outras drogas fotossensibilizantes seria de se esperar, porém não tem sido relatada.

No entanto, há muitos relatos de interação com anticoagulantes, especialmente os cumarínicos, reduzindo sua atividade. O mesmo é descrito em relação à ciclosporina e ao indinavir. Isso deve ser levado em conta nos pacientes usuários dessas prescrições. Há descrição de interações menos graves com amitriptilina, teofilina e digoxina. No caso da digoxina, reduzindo seu efeito. No caso dos inibidores sintéticos da recaptação da serotonina, podendo levar à síndrome serotoninérgica central. Há descrição de outros efeitos adversos menos importantes, e mais raros, como reações cutâneas e alérgicas, problemas digestivos, fadiga e agitação. Já foram descritos desencadeamento de mania em pacientes medicados com hipérico, e um caso de neuropatia aguda, após exposição ao sol. Menciona-se contra-indicação no caso de diabéticos. Considerando-se que muitos pacientes apresentam sintomas adversos com o uso de antidepressivos tricíclicos, especialmente sedação, o que os faz descontinuar o tratamento, e como o hipérico tem-se mostrado bem tolerado, além de ter efeito similar a muitos deles, pode ser considerado uma boa opção de escolha, especialmente se a depressão é leve ou moderada.

 Kava

A kava (Piper methysticum) é conhecida no mundo ocidental desde o século XVIII. Sua bioquímica, no entanto, só foi estabelecida na década de 60, demonstrando-se que seus efeitos eram devidos às cavapironas (cavalactonas), compostos pouco solúveis em água. A kava é originária das ilhas do Pacífico, mas, hoje em dia, é obtida de plantas cultivadas.

Os extratos medicinais são obtidos com etanol-água ou acetona-água, na proporção 12 a 20:1, produzindo extratos com aproximadamente 70% de cavapironas. Pela sua pouca solubilidade em água, para uso medicinal, as cavapironas devem ser colocadas em solução coloidal, ou, pelo menos ser reduzidas a forma finamente dividida, para promover a absorção pela via digestiva, que, desta forma, é muito boa.

As cavapironas agem como relaxantes musculares e anticonvulsivantes, com ação comparável à da mefenesina. Têm efeito protetor contra o envenenamento experimental por estricnina, superior ao dos antagonistas de estricnina não-narcóticos conhecidos. Em animais, reduzem a excitabilidade do sistema límbico de modo análogo ao da benzodiazepina. Perifericamente, atuam como anestésicos locais, com efeito comparável ao da cocaína e da benzocaína. Possuem ação inibidora da monoaminooxidase (MAO-B) e interferem com receptores do GABA-A.

Descreveram-se efeitos tóxicos, em humanos que consumiram bebidas com kava, com doses muito altas (cerca de 100 vezes as doses testadas e as doses terapêuticas recomendadas): após ingestão de 300 a 400g de pó de rizoma seco por semana, observaram-se ataxia, brotoejas na pele, queda de cabelo, coloração amarelada na pele, na esclerótica e nas unhas, hiperemia nos olhos, dificuldade de acomodação visual, falhas na audição, disfagia, problemas respiratórios, perda de apetite e perda de peso corporal. Estudos clínicos com extrato de kava, contendo pelo menos 70% de cavapirona, não demonstraram alterações da atenção e da compreensão, não reduzindo insônia e não houve alteração em reflexos motores. Estudo com produto contendo 30% de cavapironas obteve efeito similar. Em mulheres tratadas para amenizar sintomas da menopausa, observou-se melhora significativa já após uma semana, estabilizando-se após quatro semanas, durando o tratamento cerca de dois meses. Os resultados foram altamente significativos. Vários outros estudos, com doses, tempos e métodos diferentes, permitem chegar a conclusões semelhantes.

A indicação de kava é para estados de ansiedade não muito pronunciada, com doses de 60 a 120mg de cavapironas, geralmente em uma ou duas tomadas ao dia, procurando não exceder três meses (porque a maioria dos trabalhos científicos não avalia além desse prazo). Sua indicação é comparável à das benzodiazepinas, não foi descrita dependência física ou psicológica, o que seria uma vantagem. Seu custo, no entanto, pode ser um pouco mais alto.

Valeriana

A valeriana é de maior interesse no controle de agitação  nervosa e distúrbios do sono, porque, embora tenha as mesmas indicações e poucos efeitos adversos, como o lúpulo, a alfazema e o maracujá, tem sido a mais bem estudada deles. São descritas mais de 250 espécies de valeriana. A planta mais estudada e utilizada, especialmente na Europa, é a Valeriana officinalis, nativa da Europa e de zonas temperadas da Ásia, sendo obtida de formas cultivadas. Há ainda outras espécies utilizadas, como a Valeriana edulis (de origem mexicana), a Valeriana japonica e a Valeriana indica, cujo uso se baseia na prática, sem a tradição e a experiência da medicina européia. A edulis e a indica podem apresentar maior risco, pela presença de maior quantidade (até 8%) de valepotriatos, que são ésteres de ácidos graxos inferiores, ou seja, de ácido acético, ácido isovalérico e ácido acetoxiisovalérico com um álcool trivalente.

A planta seca e cortada apresenta odor desagradável característico. A parte utilizada é a raiz. Os produtos farmacêuticos são produzidos de extratos aquosos ou hidroalcoólicos (na proporção de etanol a 70%, e proporção planta/extrato de 4 a 7:1), mas a variabilidade dos extratos obtidos é muito grande. Os valepotriatos são instáveis em ambientes ácido e alcalino, bem como em altas temperaturas, assim, devem ser administrados em formas sólidas (preferivelmente comprimidos de revestimento entérico), em vez de preparações líquidas, como tinturas.

Os estudos sobre farmacologia e toxicologia da valeriana são controversos, porque seus componentes são muito numerosos, não se tendo definido quais constituintes são os responsáveis pelos seus efeitos. Observaram-se ações sobre o comportamento, anticonvulsivas, estimulantes da secreção GABA nas sinapses. Efeitos citotóxicos aparentemente só existem in vitro, não tendo sido detectados em animais, mesmo em doses muito altas. Não se observaram efeitos nos conceptos de animais em gestação, porém como há estudos que demonstram potencial mutagênico de valepotriatos em bactérias, recomenda-se o uso em humanos apenas de preparados pobres em valepotriatos.

Estudos em humanos revelaram redução significativa na latência do início do sono, independente da dose (450mg ou 900mg). Em pacientes geriátricos, observaram-se melhora no humor, nos distúrbios comportamentais, na capacidade de indução e de manutenção do sono. Estudos utilizando mistura de valeriana e melissa demonstraram efetividade na insônia e não mostraram diminuição do desempenho de vigilância e reação, ao contrário do que ocorreu com flunitrazepam.

A indicação de valeriana se faz para nervosismo e distúrbios do sono, recomendando-se 2 a 3g da planta seca ou 600mg do extrato alcoólico, uma ou mais vezes ao dia, especialmente duas horas antes de dormir. Não há contra-indicações, efeitos colaterais ou interação com outras drogas relatados na monografia da Comissão E. Relata-se cefaléia e sonolência matinal em 5% dos pacientes. Embora o relato de tentativa de suicídio seja a exceção, a dose 20 vezes maior que a terapêutica parece ser ainda benigna, só causando fraqueza, sonolência, tremores, dores abdominais, opressão no peito, com dissipação espontânea em 24 horas. Produtos de valeriana têm sido utilizados há séculos, sem evidência de que causem dependência, sem as conseqüências comuns dos benzodiazepínicos, como ressaca de sedação, respostas prejudicadas, insônia de retrocesso, dependência da droga. No entanto, como a raiz de valeriana age gradualmente, não é boa escolha para o tratamento agudo da insônia. O aconselhamento adequado, as medidas físicas e o acompanhamento são essenciais, especialmente se houver a pretensão de substituição do uso de benzodiazepínicos ou de outras drogas semelhantes. A expectativa de resultados adequados gira em torno de 2 a 4 semanas de uso. Alguns autores recomendam seu uso de forma intermitente: 8 a 10 dias de tratamento, intervalo de 2 ou 3 semanas, novo tratamento, e assim por diante. Sugere-se evitar o uso prolongado, o que poderia propiciar o aparecimento de cefaleia e agitação.

Maracujá

Utilizam-se as folhas da espécie Passiflora incarnata, cujos constituintes principais são flavonóides (até 2,5%), cumarina e umbeliferona. Tem sido contestada a ação de alcalóides presentes na planta. Extratos de maracujá, em animais, reduzem a atividade espontânea de locomoção e prolongam o sono, tanto quando administrados por via oral como pela via intraperitonial. Em humanos, extrato de Passiflora edulis produziu efeito sedativo hipnótico, mas houve efeito hepato e pancreatotóxico. A passiflorina tem ação semelhante à da morfina e, apesar de narcótico, não deprime o sistema nervoso central. Age como depressor inespecífico do sistema nervoso central, resultando em ação sedativa, tranquilizante e antiespasmódica da musculatura lisa. Pode potencializar efeitos do álcool, de anti-histamínicos, do sono induzido pelo pentabarbital e dos efeitos analgésicos da morfina. Pode ainda provocar bloqueio parcial do efeito de anfetaminas. O uso das folhas na forma de chá inclui o risco de intoxicação cianídrica, no caso de doses exageradas.

A monografia da Comissão E indica o maracujá para agitação nervosa e recomenda dose média de 4 a 8g da planta seca, ou seu equivalente em preparações de Passiflora. Pode ser utilizada sob a forma de infuso ou decoto a 15, 50 ou 200ml ao dia; ou ainda extrato fluido em álcool 25% 0,5 a 1ml até três vezes ao dia; ou  também tintura 1:8 em álcool 45% 0,5 a 2ml até três vezes ao dia.

Em nosso meio, há produtos comerciais que associam Passiflora de algumas espécies a outras plantas. A indicação é usualmente para ansiedade, insônia, irritabilidade, distúrbios neurovegetativos, hipertensão arterial leve, climatério. Não se registram contra-indicações.

Considerações finais

Portanto, podemos concluir que a atitude mais adequada em relação aos fitoterápicos é considerá-los com o mesmo rigor com que lidamos com os medicamentos sintéticos, reconhecendo, quando for o caso, sua eficácia, mas também seus efeitos adversos e a possibilidade de interações medicamentosas.

Cuidados x Benefícios

Através de cuidados com foco no bem-estar mental é possível obter os seguintes benefícios:

  • Ter controle sobre as emoções;
  • Adotar uma visão mais positiva sobre a vida;
  • Fazer boas escolhas tanto em relação à vida pessoal quanto profissional;
  • Ser mais produtivo;
  • Ter satisfação ao realizar diversos tipos de atividades;
  • Viver com tranquilidade;
  • Ter relacionamentos mais positivos.

Referências Bibliográficas:
1.TESKE, M.; TRENTINI, A.M.M. Herbarium compêndio de fitoterapia. 3. ed. Curitiba: Herbarium, 1997, 317p.
2.VORBACH, E.U., GÖRTELMEYER, R., BRÜNING, Therapie von Insomnien: Wirksamkeit und Verträglichkeit eines Baldrian-präparates. Psychopharmakotherapie 3: 109-115; 1996.
3. WARNECKE, G. Psychosomatis Dysfunktionenim weiblichen Klimakterium. KlinischeWirksamkeit und verträliglichkeitche von Kawa-Kawa-Extract beim klimakterischen Syndrom. Z. Phytother. 11: 81-86, 1991.
4. Brazilian Journal of Psychiatry
5. JRM

 

 

 

Ana Sodré

Sentir-se bem em fazer o bem… Sou antes de tudo um ser humano que ama a vida e estou sempre em busca de um mundo melhor. Atuei nos últimos 30 anos como empresária e editora, destacando três grandes publicações, a Revista Médico Repórter e o Jornal Hipócrates, atingindo a classe médica. E, por 2 anos a Revista Aimè, voltada para o público gay masculino, com venda em banca no âmbito nacional, sendo também distribuída na Argentina e em Portugal. A repercussão foi muito positiva, do qual recebi um prêmio Mulher Excelência 2009 - CIESP. Ao receber o convite para ser parte do Instituto - “Eu Causo”, foi como um raio de sol iluminando o meu horizonte… Envolvida na saúde, ao longo destes anos me deparei com diversas situações, oras boas, outras nem tanto, porém algo sempre me chamou a atenção, a fragilidade do Ser Humano. Pude perceber de perto, o quanto estamos vulneráveis mediante uma doença, quer seja em causa própria, ou de alguém da família, um amigo... Com base nessa premissa, agarro este projeto com o mesmo propósito: contribuir, através da informação, para um melhor estar! Estarei comprometida a identificar os avanços da medicina em prol da saúde, em responder as demandas da população; e vendo como as pessoas se conectam mais, me engajarei para que cada um de vocês utilize este portal, na certeza que irão encontrar um espaço acolhedor e aglutinador, para que juntos, possamos alcançar um estado de felicidade. Eu escolhi cuidar! … Eu causo!… E você?

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