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Artemisia annua: uma opção no tratamento da malária

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Pela Profa. Dra. Lúcia de Fátima Cahino da Costa Hime, pela Profa. Dra. Ceci Mendes Carvalho Lopes

Fitomedicamentos

As plantas medicinais têm cada vez mais ocupado lugar no arsenal terapêutico de muitas doenças. Graças ao incentivo à pesquisa encontramos evidências científicas que nos oferecem segurança à prescrição médica.

Malária é uma doença infecciosa, não-contagiosa, de evolução crônica, com manifestações episódicas de caráter agudo, que acomete milhões de pessoas nas regiões tropicais e subtropicais. É talvez a mais antiga, mais distribuída e mais conhecida doença parasitária que acomete o homem. É transmitida pelo mosquito Anopheles, que através de sua picada inocula protozoário do gênero Plasmodium de quatro espécies diferentes dependendo da região em que se encontra (vivax, ovale, falciparum e malarie)1. Manifesta-se por episódios de calafrios, seguidos de febre alta, que duram de três a quatro horas. Esses episódios são em geral acompanhados de profundo mal-estar, náuseas, cefaleia e dores articulares. Após a crise, o paciente retorna a sua vida habitual. No entanto, após um ou dois dias o quadro de calafrio e febre retorna e repete-se por semanas até que o paciente não-tratado sare espontaneamente ou morra em meio a complicações renais, pulmonares e coma cerebral. Tratado a tempo, só excepcionalmente morre-se de malária2.

O tratamento convencional varia dependendo da espécie parasitária, envolvendo medicamentos que com o tempo têm mostrado oferecer resistência. É um problema de saúde que atinge 300-500 milhões de pessoas e mata mais do que um milhão de pessoas anualmente. O controle da doença é prejudicado pela resistência a drogas pelo Plasmodium falciparum. Várias medicações contra a malária e vacinas vêm sendo desenvolvidas, porém a eficácia contra a malária permanece sendo investigada. Artemisinina, um endoperóxido sesquiterpeno extraído da Artemisia annua, vem sendo usada no tratamento dessa doença3.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2001 aprovou o tratamento com compostos derivados dessa planta, afirmando que oferece menor resistência que os tradicionais tratamentos com antimaláricos (choroquina e sulfadiazina-pirimetamina)4.

Artemísia (Artemisia annua L., Asteraceae) é uma planta nativa da Ásia, mais provavelmente da China, onde é conhecida como ginghao. Foi referida no The Chinese Handbook of Prescriptions for Emergency Treatments em 340 d.C. como usada no tratamento de febres5. Mais recentemente tem sido cultivada no Vietnã e no leste e sul da África, incluindo Madagascar6.

Em 1971, a extração dos princípios ativos da planta através do uso do dietileter resultou em uma mistura de compostos com atividade antimalárica testada em ratos e macacos infectados. O principal princípio ativo isolado foi o artemisinina que teve sua estrutura corretamente definida em 1972 na China como uma lactona sesquiterpênica apresentando uma ligação endoperoxila em sua estrutura química5.

Esse princípio ativo encontra-se principalmente nos tricomas (espécie de glândulas de armazenamento) existentes nas cavidades das folhas na planta em inflorescência. Artemisinina é encontrada quatro a 11 vezes mais nos tricomas das inflorescências em relação aos das folhas. Essas glândulas crescem e quando atingem a maturidade produzem uma descarga nos tecidos adjacentes e a artemisinina é combinada com outros produtos5. Essa planta possui também óleos essenciais em sua composição, contendo pelo menos 40 compostos voláteis e muitos sesquiterpenos não-voláteis7.

É muito questionada a melhor época de colheita para que seja garantida uma maior concentração de artemisinina. Para alguns, durante a inflorescência; para outros, na fase adulta da planta8.. Para Ferreira e Janick, a colheita deve ser feita antes desse processo9.

Segundo Marchese & Figueira, a qualidade das plantas medicinais e aromáticas é obtida durante todo o processo produtivo (pré-colheita), desde a identificação botânica, a escolha do material vegetal, até a determinação da época e local de plantio, a identificação dos traços culturais, a determinação da época de colheita e a observação de cuidados na colheita de modo a garantir o máximo da qualidade para o produto. A colheita de cada planta medicinal deve ser realizada quando houver, preferencialmente, a maior produção conjunta de biomassa e princípio ativo de acordo com a característica da espécie e da parte de interesse da planta10.

A época da colheita e o tipo de folhas determinam a quantidade de princípios ativos. As folhas mais escuras possuem maior quantidade de compostos que as folhas verdes, que têm maior quantidade de artemisinina11.

Atualmente 300 milhões de pessoas adoecem com malária e 1-3 milhões morrem. A artemisinina que se extrai da planta faz efeito 10-100 vezes mais rápido do que todos os antimaláricos até agora conhecidos12.

Em vários países incluindo o Brasil a quimioterapia da malária é feita empregando-se uma combinação de quinina e tetraciclina como tratamento-padrão em casos não-complicados. Contudo, a sensibilidade a quinina está diminuindo e a artemisinina e seus derivados estão sendo empregados como tratamento de primeira escolha em certas áreas, às vezes associadas a mefloquina13.

A artemisinina apresenta baixa biodisponibilidade para formulações de uso oral, recidivas das infecções, ação limitada na fase eritrocítica e, assim como os demais fármacos, pode vir a apresentar redução de sua atividade antimalárica devido ao desenvolvimento de resistência pelo parasita, tornando-se ineficaz como um antimalárico ideal. Em razão de tais limitações foi desenvolvido um grupo de análogos sintéticos com estrutura mais simples e também com alta atividade antimalárica, sendo denominado de endoperóxidos de segunda geração13.

Vários estudos vêm sendo realizados para identificar a melhor técnica de isolamento dos princípios ativos da Artemisia annua, dentre eles o de Koobkokkruad et al.14 (2007); Marchand et al.15 (2007) e Liu et al.16 (2008). Outros vêm sendo realizados com o propósito de confirmar a melhor forma de aplicação dessa planta no tratamento da doença. Dentre eles merecem destaque:

– Três pesquisas chinesas mostraram eficácia de 100% quando se administraram folhas de artemísia em pó, ou misturada com óleo ou extraída através de álcool, em doentes tratados em postos de saúde12.

– Estudo realizado por Mueller na Universidade de Tübingen mostrou que sete dias após o início do tratamento 77% dos doentes estavam sem febre, 88% não sentiam mais cansaço e 92%, as dores musculares e os enjôos. Segundo ele, o chá de artemísia tem que ser consumido nas duas primeiras horas após seu preparo. Parece que também tem ação imunológica17.

– Mellilo P. da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comprovou que o conteúdo de artemisinina aumenta com o tempo em uma amostra corretamente secada por transformação de seus precursores18.

Concluindo, os fitomedicamentos cada vez mais estão sendo estudados e com isso estão sendo resgatadas de maneira científica plantas que em épocas milenares eram usadas na cura de doenças.

Referências Bibliográficas:

1- Ferreira MS. Malária: Conceito, Etiologia e Ciclo Evolutivo. In: Foccacia, R. Tratado de Infectologia. 3ª edição. Editora Atheneu. São Paulo. p.1589-93.

2- Camargo EP. Malária, Maleita, Paludismo. Ciência e Cultura 2003; 55:1, p. 26-30.

3- Ro DK, Paradise EM, Ouellet M, Fisher KJ, Newman KL, Ndungu JM, Ho KA, Eachus RA, Ham TS, Kirby J, Chang MC, Withers ST, Shiba Y, Sarpong R, Keasling JD. Production of the antimalarial drug precursor artemisinic acid in engineered yeast. Nature. 2006 Apr 13;440(7086):940-3.

4- World Health Organization: Antimalarial d rug combination therapy  2001. WHO/CDS/RBM/2001.35.

5- Duke SO, Vaughn KC, Croom Jr. EM, and Elsohly HN. 1987. Artemisinin, a constituent of annual wormwood (Artemisia annua), is a selective phytotoxin. Weed Sci. 35:499-505.

6- Kindermans JM, Pilloy J, Olliaro P, Gomes M. Ensuring sustained ACT production and reliable artemisinin supply. Malaria Journal 2007, 6:125.

7- Woerdenbag HJ, Pras NF, Chan NG, Bang BT, Bos R, van Uden W, Van Y P, Boi NV, Batterman S, Lugt CB. 1994. Artemisinin, related sesquiterpenes, and essential oil in Artemisia annua during a vegetation period in Vietnam. Planta Med. 60:272-275.

8- Laughlin JC. 1995. The influence of distribution of antimalarial constituents in Artemisia annua L. on time and method of harvest. Acta Hort. 390:67-73.

9- Ferreira JFS, Janick J. Distribution of artemisinin in Artemisia annua. In: J Janick (Ed) Progress in new crops. ASHS Press Arlington, VA, 1996 p.579-584.

10- Marchese, JA, Figueira GM. O uso de tecnologias pré e pós-colheita e boas práticas agrícolas na produção de plantas medicinais e aromáticas. Rev. Bras. Pl. Med., Botucatu, v.7, n.3, p.86-96, 2005.

11- Lommen WJ, Schenk E, Bouweester HJ, Verstappen FW. Trichome dynamics ad artemisinin accumulation during development and senescence of Artemisia annua leaves. Planta Med 2006; 72(4); 336-45.

12- Willcox M et al. Artemisia annua as a Traditional Herbal Antimalarial. In: Traditional Medical Plants and Malaria. CRC Press Washington 2004, p.43-59.

13- Balint GA. Artemisinin and its derivates. An important new class of antimalarial agents. Pharmacol Therapeut, 2001; 90 p.261-65.

14- Koobkokkruad T, Chochai A, Kerdmanee C et al. TLC-densitometric analysis of artemisinin for the rapid screening of high-producing plantlets of Artemisia annua L. Phytochem Anal. 2007 May-Jun;18(3):229-34.

15- Marchand E, Atemnkeng MA, Vanermen S, Plaizier-Vercammen J. Development and validation of a simple thin layer chromatographic method for the analysis of artemisinin in Artemisia annua L. plant extracts Biomed Chromatogr. 2007 Dec 5.

16- Liu S, Tian N, Liu Z, Huang J, Li J, Ferreira JF. Affordable and sensitive determination of artemisinin in Artemisia annua L. by gas chromatography with electron-capture detection JChromatogr A. 2008 Mar 5.

17- Mueller M et al. Transactions of the Royal of Tropical Medicine and Hygiene, 2004; 98 p.318-21.

18- Afonso A et al. Mallaria parasites can develop atable resistance to Artemisinin Antimicrobial Agents and Chemotherapy 50 cited in The world of Artemisia Royal Tropical Institute, Netherlands 2006, p.480-89.

Ana Sodré

Sentir-se bem em fazer o bem… Sou antes de tudo um ser humano que ama a vida e estou sempre em busca de um mundo melhor. Atuei nos últimos 30 anos como empresária e editora, destacando três grandes publicações, a Revista Médico Repórter e o Jornal Hipócrates, atingindo a classe médica. E, por 2 anos a Revista Aimè, voltada para o público gay masculino, com venda em banca no âmbito nacional, sendo também distribuída na Argentina e em Portugal. A repercussão foi muito positiva, do qual recebi um prêmio Mulher Excelência 2009 - CIESP. Ao receber o convite para ser parte do Instituto - “Eu Causo”, foi como um raio de sol iluminando o meu horizonte… Envolvida na saúde, ao longo destes anos me deparei com diversas situações, oras boas, outras nem tanto, porém algo sempre me chamou a atenção, a fragilidade do Ser Humano. Pude perceber de perto, o quanto estamos vulneráveis mediante uma doença, quer seja em causa própria, ou de alguém da família, um amigo... Com base nessa premissa, agarro este projeto com o mesmo propósito: contribuir, através da informação, para um melhor estar! Estarei comprometida a identificar os avanços da medicina em prol da saúde, em responder as demandas da população; e vendo como as pessoas se conectam mais, me engajarei para que cada um de vocês utilize este portal, na certeza que irão encontrar um espaço acolhedor e aglutinador, para que juntos, possamos alcançar um estado de felicidade. Eu escolhi cuidar! … Eu causo!… E você?

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