Saúde Mental

Transtorno Bipolar

Atenção ao espectro bipolar

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Causa é predominante genética

Dada a sua prevalência, o transtorno bipolar deve ser tratado como um problema de saúde pública. A opinião é do Dr. José Alberto Del Porto, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM). “É uma doença bastante prevalente. Aqui no Brasil, não temos dados precisos, mas, ao que tudo indica, a prevalência não é muito diferente daquela encontrada nos Estados Unidos”, informa o especialista.

Para ilustrar em números o quadro de pacientes bipolares existente no País, o Dr. Del Porto cita um estudo feito por um grupo da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa analisou a prevalência da doença na região de captação do Hospital das Clínicas. “Esses dados são bastante semelhantes ao de um estudo epidemiológico mais amplo realizado nos Estados Unidos por Kessler e colaboradores no fim da década de 90. Eles indicam que, se nós considerarmos a doença bipolar nas suas formas mais clássicas, teremos a prevalência em torno de 1,6% para a população geral. No entanto, se considerarmos as formas mais brandas da doença, que hoje são chamadas de espectro bipolar, a prevalência aumenta para a faixa de 5% da população”, cita o médico.

Sobre o transtorno bipolar, hoje já se sabe que sua causa é predominantemente genética. “As pesquisas realizadas até agora indicam que se trata de uma herança poligênica, que não segue o padrão clássico da herança mendeliana”, explica o Dr. Del Porto. Para fazer o diagnóstico, o médico deve se valer da análise do quadro clínico apresentado pelo paciente, o que pode levar a alguns equívocos. “O que ocorre é que as formas mais graves muitas vezes são confundidas com esquizofrenia ou com transtornos graves da personalidade e, por isso, são subdiagnosticadas”, alerta o psiquiatra.

De acordo com ele, como a doença bipolar, em boa parte do tempo, mostra-se através da sintomatologia depressiva, o diagnóstico mais comumente feito é o de depressão unipolar, ao invés de se diagnosticar a doença bipolar. “A doença bipolar tem fases depressivas e fases de excitabilidade motora e psíquica. O que ocorre é que as fases de exaltação do humor duram menos tempo e podem ser atípicas, de forma que o paciente mais comumente é visto pelo médico na vigência das suas fases depressivas. Um erro frequente é o de se considerar o paciente bipolar como tendo apenas transtorno de depressão unipolar, quando, na verdade, ele é um bipolar”, observa.

A doença bipolar pode começar na infância e na adolescência e se estender até o fim da vida adulta e também pode se manifestar em qualquer fase da vida. Além disso, tem-se como característica do transtorno o fato de afetar homens e mulheres da mesma forma, na proporção de um para um. Um fator importante, no entanto, é o risco muito elevado que esses pacientes têm de desenvolverem dependência e abuso de álcool e drogas. “Isso leva muitas vezes a outro erro de diagnóstico. É comum se prestar atenção à dependência e abuso de álcool e drogas sem se verificar o que está por trás”, lembra o Dr. Del Porto. Segundo ele, uma pessoa que tem um transtorno bipolar tem oito vezes mais risco de desenvolver abuso de álcool e drogas.

Espectro bipolar

De acordo com o especialista, o quadro típico do transtorno bipolar – chamado bipolar tipo 1 – é caracterizado por uma alternância de fases maníacas típicas com fases depressivas também muito típicas: depressão maior e mania franca. No entanto, ele atenta para a existência de formas mitigadas nas quais a pessoa apresenta quadros depressivos mais claros, porém, não apresenta uma mania franca. “Ela apresenta o que a gente chama de hipomania, ou seja, episódios mitigados de mania, nos quais a pessoa nem sempre está com o humor eufórico, ela está simplesmente hiperativa”, diz.

Essa presença de mania, ainda que bastante mitigada, caracteriza uma doença do espectro bipolar e também requer tratamento. “Aí que vem o ‘X’ da questão. Enquanto os antidepressivos são úteis para a depressão unipolar, eles podem ser prejudiciais na doença bipolar. Eles podem precipitar a ocorrência de episódios de mania, fazer com que esses episódios se tornem mais frequentes – o que nós chamamos de ciclagem rápida – e podem também fazer aparecer o que se chama de episódios mistos da doença”, explica o especialista. São chamados episódios mistos aqueles que manifestam uma depressão mesclada, por exemplo, com irritabilidade ou com certa exaltação do humor, não propriamente no sentido da euforia, mas no sentido da disforia.

Em termos de classificação da doença, o Dr. Del Porto diz que há um contínuo que vai das formas mais leves às formas mais graves. “Costumamos falar em gravidades diferentes. Temos desde os quadros mais graves, que são as formas clássicas, até formas mitigadas, que se confundem com as fronteiras do temperamento hipertímico ou ciclotímico. Há autores que dão números para classificar isso, mas é uma maneira didática de dizer que há graus variados”, observa. Entre esses graus do transtorno bipolar, está, por exemplo, o indivíduo que aparentemente só tem depressão, mas, quando ingere antidepressivos, tem um episódio de mania. “A isso convencionou-se chamar de bipolar tipo 3. Existem também pacientes bipolares que só manifestam a doença quando usam drogas estimulantes como anfetamina ou cocaína. Esses também são quadros que integram o chamado espectro bipolar”, diz.

O espectro bipolar também inclui casos que aparecem na vigência de certas doenças clínicas como, por exemplo, o hipertiroidismo ou mesmo certos quadros de demência. “Por exemplo, a pessoa estava bem até começar um quadro de Alzheimer. Depois disso, ela passa a manifestar a doença bipolar que estava em estado latente”, explica o médico. De acordo com ele, nesses casos, o indivíduo já tem uma predisposição genética que se manifesta na ocorrência de outras doenças.

Quanto à frequência, as crises costumam variar muito de pessoa para pessoa. “Mas podemos dizer que, quando a pessoa tem mais de quatro episódios de mania ou depressão ao longo de um ano, há uma ciclagem rápida”, compara.

Esses casos de cicladores rápidos vão requerer alguns cuidados especiais no seu tratamento. “Por exemplo, eles não costumam responder bem aos sais de lítio, que são a primeira escolha para os estados bipolares clássicos de mania eufórica. Quando se trata de ciclador rápido e estado misto, muitos autores dão preferência a certos anticonvulsivantes ou mesmo aos chamados antipsicóticos atípicos, que são uma classe de medicamentos que vêm emergindo com muita importância para o tratamento da doença bipolar”, diz o médico.

Tratamento

De maneira geral, os autores indicam o uso de estabilizadores do humor para tratar a doença bipolar. “Felizmente, hoje existe uma gama bastante ampla desses medicamentos”, diz o psiquiatra. Como citado anteriormente, os sais de lítio têm sido considerados a primeira opção para o tratamento da mania eufórica, no entanto, os autores dão preferência a alguns anticonvulsivantes, como o divalproato de sódio, ou aos antipsicóticos atípicos para controlar o transtorno com ciclagem rápida e estado misto. “Entre os antipsicóticos atípicos são citados a olanzapina, a ziprasidona, a risperidona, o aripiprazol e a quetiapina”, cita o Dr. Del Porto, acrescentando uma substância que tem sido pesquisada: a asenapina.

Uma questão delicada no tratamento é a depressão bipolar. “Quando o paciente bipolar está deprimido, o que podemos usar? Se usarmos antidepressivos, existe o risco de uma virada para o pólo maníaco. Para essa finalidade, novos tratamentos têm sido pesquisados. Entre os quais, o uso da lamotrigina e da quetiapina. Além da associação da olanzapina com a fluoxetina”, lembra o psiquiatra.

Reservada para casos mais graves que não respondem à terapêutica usual, a eletroconvulsoterapia é considerada pelo Dr. Del Porto um tratamento bastante útil. “No entanto, por envolver a necessidade de anestesia, ela deve ser indicada apenas para as depressões mais refratárias”, opina.

Com relação aos efeitos colaterais, o psiquiatra cita que os sais de lítio podem, eventualmente, favorecer o ganho de peso e induzir ao hipotiroidismo. Já os anticonvulsivantes, como o divalproato de sódio, podem levar, eventualmente, a uma queda de cabelos não-grave e, raramente, podem levar a alterações hepáticas e pancreáticas. “Os neurolépticos atípicos podem acarretar a síndrome dismetabólica, com aumento da glicemia e do colesterol, e alguns tipos podem apresentar como efeito colateral o aumento da prolactina”, diz o psiquiatra. Entretanto, ele frisa que todas as reações adversas são passíveis de um manejo adequado. “Mas é sempre necessário que o médico e o paciente estejam cientes delas”, finaliza.

Ana Sodré

Sentir-se bem em fazer o bem… Sou antes de tudo um ser humano que ama a vida e estou sempre em busca de um mundo melhor. Atuei nos últimos 30 anos como empresária e editora, destacando três grandes publicações, a Revista Médico Repórter e o Jornal Hipócrates, atingindo a classe médica. E, por 2 anos a Revista Aimè, voltada para o público gay masculino, com venda em banca no âmbito nacional, sendo também distribuída na Argentina e em Portugal. A repercussão foi muito positiva, do qual recebi um prêmio Mulher Excelência 2009 - CIESP. Ao receber o convite para ser parte do Instituto - “Eu Causo”, foi como um raio de sol iluminando o meu horizonte… Envolvida na saúde, ao longo destes anos me deparei com diversas situações, oras boas, outras nem tanto, porém algo sempre me chamou a atenção, a fragilidade do Ser Humano. Pude perceber de perto, o quanto estamos vulneráveis mediante uma doença, quer seja em causa própria, ou de alguém da família, um amigo... Com base nessa premissa, agarro este projeto com o mesmo propósito: contribuir, através da informação, para um melhor estar! Estarei comprometida a identificar os avanços da medicina em prol da saúde, em responder as demandas da população; e vendo como as pessoas se conectam mais, me engajarei para que cada um de vocês utilize este portal, na certeza que irão encontrar um espaço acolhedor e aglutinador, para que juntos, possamos alcançar um estado de felicidade. Eu escolhi cuidar! … Eu causo!… E você?

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